segunda-feira, 27 de junho de 2016

É PROIBIDO PENSAR?



É PROIBIDO PENSAR?



“Todo evangélico é alienado e idiota”; “todo crente é imbecil”; “todo cristão é ignorante” – pelo menos é isso que muita gente pensa. Quantas frases como essas eu já escutei durante minha vida. As pessoas dizem as coisas mais absurdas sem o mínimo de bom senso. Será que todo evangélico é um ser que não pensa? Logicamente que não. Nem todo religioso é ignorante por ser religioso, como também, nem todo que se julga racional é inteligente de fato. Não podemos generalizar. Como disse certa vez o filósofo Mário Sérgio Cortella: “Religião não é coisa de gente tonta. Religião é coisa de gente, só que tem gente tonta em todo lugar”. 

Mas, precisamos dar a mão à palmatória. Muitos, não todos, se comportam como se fosse realmente proibido pensar. E, nesses casos, as acusações são verdadeiras. Muitos cristãos são zelosos em sua fé, sinceros em sua prática, mas falta-lhes o entendimento. Muitos têm zelo sem conhecimento e outros, conhecimento sem zelo. Não é uma escolha, uma opção de este ou aquele, é preciso ter ambos. John Stott no livro “Crer é também pensar”, diz o seguinte: “Dou graças a Deus pelo zelo. Que jamais o conhecimento sem zelo tome o lugar do zelo sem conhecimento! O propósito de Deus inclui os dois: o zelo dirigido pelo conhecimento, e o conhecimento inflamado pelo zelo”.

Crer é também pensar. O cristão não precisa esconder sua razão e inteligência quando tratar de coisas relativas à sua crença. Muitos têm a fé como algo mítico ou um salto no escuro. Alguns comparam a história cristã com fábulas infantis. A fé cristã não está fundamentada em mitos e histórias fantasiosas. São fatos históricos, arqueológicos, antropológicos, geográficos e racionais.

No outro polo estão aqueles que se deixam levar por qualquer vento de doutrina, que não têm alicerçado sua fé na Rocha que é Cristo. O cantor João Alexandre numa música chamada “É proibido pensar”, expressa bem esse tipo de cristão. Para ele, são pessoas que estão sempre em busca de alguém para resolver seus problemas e que precisam se encaixar no sistema gospel atual. Buscam sempre as variações de um mesmo tema no afã de solucionar suas angústias existenciais. Nessas meras repetições. Buscam extravagantes “profetas”, querem reconstruir o que Jesus derrubou, misturando ritos judaicos com a Graça de Cristo ou nas palavras do hino: “ressuscitando a lei, pisando na graça”. Pessoas negociando com Deus para obtenção de bênçãos; buscando apenas o show da fé e milagres extraordinários. Devotam culto aos pastores e apóstolos que parecem clones do “líder-papa” imitando até mesmo o jeito de falar e suas expressões corporais. Ou seguem a mais um líder importado que dita as regras para escravizar os incautos. 

A boa notícia é que você não precisa ser como diz a letra da canção. Muitos cristãos na história deram provas cabais de que a inteligência não precisa estar divorciada da fé. Crer e pensar é definitivamente possível. Basta olharmos grandes personagens cristãos que, como disse Agostinho de Hipona (354-430), no sermão 43: “eu creio para compreender e compreendo para crer melhor” (intellige ut credas, crede ut intelligas). Homens como Jonathan Edwards (considerado um dos maiores pensadores dos EUA); Martin Luther King Jr (o mais jovem a conquistar um prêmio Nobel da paz); William Wilbeforce (foi membro do parlamento Britânico e que militou por 30 anos contra o tráfico negreiro e abolição da escravatura); Robert Boyle (considerado o fundador da química moderna), o inglês Isaac Newton (um dos maiores gênios da História); o apologista e filósofo contemporâneo William Lane Craig (já debateu com grandes ateus da atualidade); isso só pra citar alguns. A lista é imensa. 

Alguém com conhecimento sem Graça vira legalista e alguém com Graça sem conhecimento vira um fanático. Para os líderes em geral existe uma séria advertência na Palavra de Deus: “O meu povo foi destruído, porque lhe faltou o conhecimento; porque tu rejeitaste o conhecimento, também eu te rejeitarei, para que não sejas sacerdote diante de mim...” Oséias 4.6. 

Existem evangélicos burros, políticos corruptos, padres pedófilos e pastores ladrões. Mas, nem todo evangélico é burro, nem todo político é corrupto, nem todo padre é pedófilo, nem todo pastor é ladrão, portanto, cuidado com as generalizações. 



Pr. Antônio Pereira Jr.

(1ª Igreja Congregacional em Guarabira – PB).

E-mail: oapologista@yahoo.com.br

segunda-feira, 13 de junho de 2016

É FORTE...


É FORTE...

Muitos cristãos se impressionam com qualquer coisa. Os modismos evangélicos são como ondas na praia, vem e vão e não produzem nada de extraordinário. Por mais de duas décadas envolvido nesse meio pude perceber que grande parte dos clichês gospels são como um “abracadabra” que os mágicos antigos usavam para ludibriar os incautos. Ou a senha “abre-te sésamo” que Ali-Babá utilizava em “As Mil e uma Noites” para abrir a porta automaticamente do esconderijo do tesouro que os 40 ladrões roubavam. O grande problema é que os 40 se multiplicaram em milhares.

Quando um pregador cita algumas palavras, parece que o raciocínio dos fieis fica embotado. E o que este disser a partir da palavra-senha, será quase que a voz do próprio Deus falando. Como se fosse proibido pensar. Deixe-me ser mais claro. Houve época que a palavra mais citada era “tremendo”. O culto é “tremendo”; a revelação agora é “tremenda”; louvor “tremendo”, etc.

Outro tempo a palavra-senha foi “Deus purinho”. Quando o que se falava era “Deus purinho” não se questionava mais nada. Mesmo que o que se dizia não tinha nada de Deus e muito menos de puro. Outra palavra-frase muito dita, inclusive ainda hoje, é: “coisa grande”. Isso é grande, e o que se escuta depois, geralmente enfeitado com algum arrepio ou emoção alterada, também não tem nada de grande, é só mais uma “coisa”.

Esses clichês são utilizados em vários momentos e nas mais variadas denominações para produzir, em muitos casos, um clima de espiritualidade aparente. Verdadeiro pavoneamento do suposto profeta. Em tempos recentes, em alguns grupos, a palavra-chave agora é “forte”. Culto “forte”; oração “forte”; pregação “forte”. Isso e aquilo é muito “forte” igreja – é o que dizem. Pastor “forte”; profeta “forte”; missionário “forte”. São os halterofilistas da fé. Paulo, ao contrário, se gloriava nas fraquezas (2Coríntios 12.9).

Alguns, para justificar certa autoridade e espiritualidade, pregam aos berros, como se o grito fosse transformar heresia em verdade. Dizer mentiras aos berros não a torna mais crível. Gritar não vai fazer com que a heresia dita se transforme em verdade. Uma heresia será sempre uma heresia, seja dita em qualquer tom.

Saiba: não é proibido pensar. Não me leve a mal. Digo isso com tristeza no coração por ver o povo de Deus sendo enganado com discursos rasos e cheios de promessas vãs que não tem nada a ver com o evangelho de Jesus. Nenhuma dessas coisas se encontra nos lábios do Senhor e muito menos na boca dos apóstolos da Igreja primitiva.

Que saudade dos crentes bereanos que examinavam as Escrituras mesmo ouvindo um baluarte da fé como o apóstolo Paulo: “Os bereanos eram mais nobres do que os tessalonicenses, porquanto, receberam a mensagem com vívido interesse, e dedicaram-se ao estudo diário das Escrituras, com o propósito de avaliar se tudo correspondia à verdade” (Atos 17.11). Estes eram mais nobres porque examinavam as Escrituras e não se impressionavam com qualquer oratória. Leia a Palavra e não se deixe enganar.

O apóstolo Pedro também advertiu que nos últimos tempos: “Assim como, no meio do povo, surgiram falsos profetas, assim também haverá entre vós falsos mestres, os quais introduzirão, dissimuladamente, heresias destruidoras, até ao ponto de renegarem o Soberano Senhor que os resgatou, trazendo sobre si mesmos repentina destruição. E muitos seguirão as suas práticas libertinas, e, por causa deles, será infamado o caminho da verdade; também, movidos por avareza, farão comércio de vós, com palavras fictícias...” (2Pedro 2.1-3). Percebe? O apóstolo Pedro adverte sobre essas pessoas cuja única finalidade é arrancar dinheiro dos fiéis. Portanto, já estamos todos avisados.

Pare e pense enquanto você pode. Tremendo (e não soberbo) ficou Isaías, e todo aquele que reconhece a grandeza do Eterno, ao se ter a visão daquele que é Santo, Santo, Santo. Grande é Cristo que foi crucificado, morto e sepultado por nossos pecados e ressuscitou ao terceiro dia para a nossa justificação. Forte é o nosso Deus em cuja presença só podemos nos humilhar, o adorar, chorar, lamentar nossas misérias e dizer como o publicano: “Tem misericórdia de mim que sou pecador” (Lucas 18.13). 



Soli Deo Gloria Nunc Et Semper (Somente a Deus damos a Glória, agora e sempre). 

Pr. Antônio Pereira Jr.

(1ª Igreja Congregacional em Guarabira – PB).

E-mail: oapologista@yahoo.com.br

sexta-feira, 15 de abril de 2016

DEPOIS DO PRANTO, ME APRONTO, ME APRUMO.




DEPOIS DO PRANTO, ME APRONTO, ME APRUMO.


Já chorou hoje? Essa semana? Ou você é daqueles que não choram com facilidade? Eu sei, confessar que se chora não é muito animador porque denota, para alguns, reconhecer sua fraqueza e fragilidade. Mas às vezes é inevitável. Mesmo sem querer vem aquele nó na garganta. Aquela vontade de molhar os olhos de dentro para fora. Não é assim?

Choramos pelas mais variadas razões: quando estamos alegres, tristes, com dor ou raiva. Choramos quando estamos apaixonados ou com saudades. As razões são as mais diversas. E as vezes choramos sem razão alguma. É apenas a alma querendo algum alívio. O que pouca gente sabe é que sempre produzimos lágrimas que servem para lubrificar os olhos. Elas existem para que possamos enxergar melhor. Não é uma boa metáfora para a vida? Só enxerga melhor aquele que passa pelas tempestades da vida, que sabem o que é chorar. Afinal, o céu fica mais lindo depois de um temporal.  

Quem chora não quer explicações científicas, quer só ficar no seu canto esperando que por algum encanto um sorriso logo apareça. Choramos porque choramos e daí? O choro é o escape da alma. É bom chorar, e se for de alegria, melhor ainda. Somos náufragos no oceano das lágrimas, como disse Cecília Meireles:

“O choro vem perto dos olhos para que a dor transborde e caia.
O choro vem quase chorando, como a onda que toca na praia.
Descem dos céus ordens augustas e o mar leva a onda para o centro.
O choro foge sem vestígios, mas deixando náufragos dentro!”

Como náufragos no mar de nossos sentimentos muitas vezes nos sentimos sós, abandonados. No alto-mar de nossas dores e angústias parece que somos as únicas criaturas da terra que não tem alegria. É preciso entender que as tempestades são inevitáveis! Mas, não duram para sempre. Já escrevi em outro texto que nos dias de chuva o sol não deixa de existir, nossos olhos é que não conseguem, por enquanto, ver além.

O que me consola é saber que aquele que é Soberano, Deus e Senhor soube o que era chorar. No verso mais curto do Novo Testamento está a declaração que nos consola: Jesus chorou” (João 11.35). O Mestre dos mestres, como homem mostrou-se sensível às dores dos outros. Chorou diante da morte de um amigo querido. Chorou mostrando sua humanidade, que não era um super-homem como muitos líderes hoje querem se mostrar. Chorou para que todos nós saibamos que faz parte da vida chorar.

Se eu choro é sinal que estou vivo, e se estou vivo toda lágrima pode converter-se em riso. Paulo sabia que apesar de todas as lágrimas que derramamos, não estamos sós. Deus é o Deus de toda consolação (II Coríntios 1.3-4). Ou como diz o salmista: “... O choro pode durar uma noite, mas a alegria vem pela manhã” (Salmos 30.5). Só quem sabe chorar aos pés de Jesus pode escutar: “A tua fé te salvou. Vai em paz” (Lucas 7.36-50).

Chore muito, mas não fique chorando para sempre. Ter um período de luto faz bem para a alma. No entanto, não se deve ficar assim para sempre. Se isso acontece, vira-se depressão. E você começa a morrer também. Acredito sim que tem angústia que só sai pela via das lágrimas. Não dá pra guardar dentro do peito. Isso adoece a alma. Mas lembre-se: “Se tu choras por ter perdido o sol, as lágrimas te impedirão de ver as estrelas” (Rabindranath Tagore).

Jesus chorou... Ainda bem!

As lágrimas sempre nos acompanham. Quando nascemos, choramos; quando morremos, outros choram por nós. Mas eu sou duro na queda. Não vou chorar hoje...

Onde está mesmo aquele lenço que escondi?


Pr. Antônio Pereira Jr.
(1ª Igreja Congregacional em Guarabira – PB).

E-mail: oapologista@yahoo.com.br

sexta-feira, 8 de abril de 2016



ATENÇÃO:

EU CRIEI O CANAL "BALAIO LITERÁRIO" PARA POSTAR RESENHAS DE LIVROS DE LITERATURA EM GERAL. CRISTÃ OU NÃO.
COMO TAMBÉM FALAR SOBRE OS MAIS DIVERSOS ASSUNTOS DE INTERESSE GERAL: TEOLOGIA, APOLOGÉTICA, FILOSOFIA, PSICOLOGIA, ETC.
ACESSEM E SE INSCREVAM. PELO MENOS UM VÍDEO POR SEMANA. 
DIVULGUEM O CANAL, VAMOS CRESCER JUNTOS.
DÊ UM CLIQUE NO LINK ABAIXO, INSCREVA-SE, COMENTE E DIVULGUE:

terça-feira, 15 de março de 2016

OS ESPINHOS DA VIDA


OS ESPINHOS DA VIDA

"E para que não me ensoberbecesse com a grandeza das revelações, foi-me posto um espinho na carne... Por causa disto, três vezes pedi ao Senhor que o afastasse de mim. Então, ele me disse: A minha graça te basta, porque o poder se aperfeiçoa na fraqueza”.
(2 Coríntios 12.7-8).



Diferentemente do que prega a Teologia da Prosperidade, todos nós estamos sujeitos ao sofrimento e a dor. O fato é que ninguém gosta de sofrer, nem eu. Não advogo uma vida de sofrimento. Se pudesse viveria sempre sossegado, dormindo numa rede e tomando água de coco. Mas não posso ser utópico. Em algumas igrejas o que se prega é a falsa teologia do “pare de sofrer”. Todos sabemos por experiência própria que na vida, quer queiramos quer não, haverá espinhos. Nem tudo são flores. Cristo nunca prometeu flores sem dores. Ele mesmo disse: “No mundo tereis aflições” (João 16.33).

No entanto, alguns sofrimentos nos causam bem. A dor que achamos ser uma maldição, se formos olhar com outro prisma, veremos que pode ser redundado em bênção. Talvez você se pergunte: Como assim? Será que no sofrimento posso tirar algo valioso para minha vida? 

Deixe-me citar apenas dois fatos importantes:
(1)             Experiências com Deus não implica em ausência de crises. Grandes homens de Deus sofreram muito apesar de serem consagrados, santos e dedicados ao Eterno. Um deles foi o apóstolo Paulo. Jesus disse que Paulo seria para Ele um instrumento escolhido... E eu lhe mostrarei quanto lhe importa sofrer pelo meu nome” (Atos 9.16).

(2)            Às vezes Deus permite que as aflições nos atinjam porque tem um propósito definido. No caso de Paulo, o espinho em sua carne servia para mantê-lo mais humilde: “E, para que não me exaltasse pela excelência das revelações, foi-me dado um espinho na carne, a saber, um mensageiro de Satanás para me esbofetear, a fim de não me exaltar” (2Coríntios 12.7).

Não sei qual o propósito do seu sofrimento, mas uma coisa eu sei, Deus não é sádico. Ele não se alegra pelo sofrimento imposto, mas sim, pelo crescimento que o sofrimento pode trazer para os afligidos. Hoje vivemos a alegria “facebookiana”. Quase ninguém posta fotos tristes, angustiado ou chorando. Como se na vida não existissem dores. No entanto, no chão da vida, quem nunca ficou triste, angustiado ou chorou? Mas falar ou postar nossas fraquezas não pega bem. As pessoas querem nos ver (e nós mesmos) como exemplos de seres humanos de uma dimensão superior, alguém que não sofre, que não chora por nada, um vencedor em todas as batalhas.

O apóstolo Paulo, apesar de ser um homem excepcional, era homem sujeito as mesmas angústias e dores como todos nós. Aliás, não sofremos nem dez por cento do que ele sofreu. Basta ler 2Coríntios 11.23-33. Já que a dor é inevitável e o sofrimento é opcional, como disse Carlos Drummond de Andrade, basta-nos aprender as lições que essas dores nos deixam.

O que Paulo aprendeu?
Primeiro, que a dor existe para nos manter mais humildes. Somos soberbos, cheios de nós mesmos, achamos que somos os donos da verdade. Deus vem e nos mostra, através da dor, que não passamos de meros humanos e mortais. É sempre bom saber que somos apenas humanos. O sofrimento expurga o orgulho. Já disse John Vance Cheney: “A alma não teria arco-íris se os olhos não tivessem lágrimas”.

Segundo, a dor existe para nos aproximar mais de Deus. O que o apóstolo faz nessa hora? Pede para Deus afastar a dor. Não somos assim também? Pedimos para Deus nos afastar o cálice, a dor, o espinho da carne, mas é através dele que crescemos, que amadurecemos, que nos refugiamos no Altíssimo. Como alguém já disse: Algumas vezes Deus precisa derrubar-nos de costas para que olhemos para cima”.

Terceiro, quando Deus não tira a dor, nos dá Graça para suportarmos. “E disse-me: A minha graça te basta, porque o meu poder se aperfeiçoa na fraqueza. De boa vontade, pois, me gloriarei nas minhas fraquezas, para que em mim habite o poder de Cristo. Por isso sinto prazer nas fraquezas, nas injúrias, nas necessidades, nas perseguições, nas angústias por amor de Cristo. Porque quando estou fraco então sou forte” (2Coríntios 12.9-10).

A graça de Deus te basta? A diferença não é ter uma religião, é conhecer a Graça que nos consola. Assim como um pai ensina seu filho através da dor, assim é nosso Pai celestial. No entanto, Ele nos dá a maior Graça para suportarmos. Termino com a frase de J. Blanchard: Dor e sofrimento não são necessariamente sinais da ira de Deus; podem ser exatamente o contrário”.

Pr. Antônio Pereira Jr.
(1ª Igreja Congregacional em Guarabira – PB).
E-mail: oapologista@yahoo.com.br


sábado, 20 de fevereiro de 2016

SUICÍDIO: O FIM DA ESPERANÇA



SUICÍDIO: O FIM DA ESPERANÇA




Já sentiu vontade de morrer? Eu sei como é isso. Quem nunca, em momento de profunda tristeza ou decepção, não deixou esse pensamento penetrar no coração? Querer que o sofrimento acabe é natural. O sofrimento é fruto do pecado na raça humana. O engano é pensar que quando se tira a própria vida o sofrimento acaba. Nunca acaba, principalmente para os entes queridos que ficam com a sensação de impotência e cheio de questionamentos existenciais. 

Vou tentar ser o mais sucinto possível. É impossível tratar com detalhes sobre esse assunto complexo num pequeno artigo. As questões éticas sempre serão difíceis de tratar e sempre teremos vozes dissonantes. Entendo que até certo ponto, sentir vontade de morrer é normal. Vários homens de Deus também pensaram em desistir da vida. Na Bíblia, há pelo menos três personagens que pediram para si a morte: Elias (1Reis 19.4). (Jó 7.15) e Jonas (Jonas 4.3).

O Suicídio que também é conhecido como “autocídio”, vem do latim: sui (a si mesmo) e caedere (matar, cortar), ou seja, matar a si mesmo. As causas são as mais diversas: transtorno mental ou psicológico desembocando no ato extremo por causa de uma depressão profunda; transtorno bipolar; esquizofrenia; abuso de drogas; dificuldades financeiras, etc. Acredita-se que mais de 800 mil pessoas cometem suicídio por ano em todo mundo. Alguns dados dizem que são mais de 1 milhão. O mais trágico é que a faixa etária está entre as pessoas mais jovens (pessoas com menos de 35 anos). Paradoxalmente quem tem mais tempo pela frente desiste da vida. Os velhos sabem dar mais valor à vida, entendem que apesar dos problemas, como disse Gonzaguinha: “É a vida... E é bonita, é bonita e é bonita”. 

A princípio, biblicamente falando, alguns entendem que o suicídio é um assassinato, pois na Bíblia diz: "Não matarás" (Êx 20.13). Um princípio claro é que a vida pertence a Deus e apenas ele tem o direito de tomá-la (Dt 32.39; Jo 1.21). Com relação ao suicídio em si, há pelo menos cinco casos registrados na Bíblia: Abimeleque (Jz 9.50-56); Saul (1Sm 31.1-6); Zinri (1Rs 16.18-19); Aitofel (2Sm 17.23), e Judas, único exemplo no Novo Testamento (Mt 27.3-10). Alguns inferem deste último que o suicídio leva a condenação, contudo, Judas foi condenado não porque suicidou-se, mas por trair a Cristo e Sua mensagem.

De forma geral os teólogos condenam o suicídio. Crisóstomo, Eusébio, Ambrósio e Jerônimo apoiaram as mulheres que cometiam suicídio para escapar de homens que queriam colocá-las em bordéis. Já Agostinho as condenava. Tomás de Aquino classificou o suicídio como o pior dos pecados. A Igreja Católica condenava todos os suicidas. As igrejas evangélicas tradicionalmente condenam o suicídio, sem, contudo, condenar o suicida. Há uma diferença. O suicídio é errado? Claro que é. A vida é bela apesar dos espinhos. Mas alguém que se suicida por passar por problemas psicológicos, ou fraquezas humanas não teria o perdão de Deus? Quem é o juiz? Quem pode determinar se alguém foi para o céu ou não? Quem sabe com certeza se alguém antes de morrer não teve tempo para se arrepender? Alguns casos podem ser notórios, outros não nos cabe julgar. 

Nem todo “suicídio” é um ato contra si mesmo. Sansão comete um “suicídio sacrificial” pelos outros. E este gesto não o condenou, ele foi colocado entre os heróis da fé, junto com Gideão e Baraque (Hb 11.32). O que não se pode dizer de Judas, por exemplo. Basicamente, o suicídio é moralmente errado porque tal ideia leva o homem a querer tomar o lugar de Deus, que é o único que tem o direito de dar a vida e tirá-la. 

Deixe-me compartilhar alguns princípios que acho coerentes: 

(1) Nem sempre tirar uma vida é assassinato. O mandamento bíblico significa: "Não cometerás assassinato" (Êx 20.13). Por exemplo, tirar vidas numa guerra justa contra um agressor mau não é assassinato (Gn 14.14-15). Existia até o homicídio acidental (Dt 19.4-5) e que o homem não era tido por culpado. Além de haver a pena capital instituída pelo próprio Deus (Gn 9.6; Dt 19.21). É tanto antibíblico quanto irrealista categorizar todo ato de tirar uma vida como sendo moralmente errado e sujeito a condenação eterna. 

(2) O suicídio para si mesmo não pode ser justificado filosoficamente. Apesar de alguns filósofos serem a favor, como Schopenhauer, o suicídio, diz Sartre, é errado porque é um ato de liberdade que destrói todos os atos futuros de liberdade. Ou, o suicídio é uma ação absurda do raciocínio, porque é a "razão" que se destrói a si mesma. Viver é dom de Deus.

(3) O suicídio para si mesmo não pode ser justificado eticamente. O suicídio não é um ato de interesse-próprio. Não pode ser! É uma falta de interesse apropriado em si mesmo. A única maneira de alguém demonstrar interesse em si mesmo é preservar a si mesmo. Quando um homem se suicida, ele o faz contra sua vontade básica para viver. Agostinho disse que o suicídio é um fracasso da coragem. 

(4) Nem todo suicídio é errado (Rm 5:7; Jz 16:30; Fp 1:23). Segundo Norman Geisler, a prova real de que o suicídio sacrificial está moralmente certo é a morte de Cristo que veio "... dar a sua vida em resgate por muitos" (Mc 10.45; Jo 10.18). "Ninguém tem maior amor do que este," disse Jesus, "de dar alguém a própria vida em favor dos seus amigos" (Jo 15.13). Cristo disse: "dou a minha vida" (Jo 10.15), porque "o bom pastor dá a vida pelas ovelhas" (Jo 10.11). 

Geisler esclarece o termo suicídio aplicado a Cristo: “Talvez alguns objetem ao uso da palavra ‘suicídio’ nesta conexão. Podem argumentar que o sacrifício da sua vida em prol doutras pessoas não é suicídio. O soldado que cai por cima de uma granada para salvar seus companheiros não está se suicidando, pode ser argumentado. É verdade. Há uma diferença entre o suicídio egoísta e aquilo que chamamos de suicídio sacrificial, e somente este último é moralmente justificável. Se a pessoa quer usar a palavra ‘suicídio’ ou não, a respeito de tal sacrifício, é questão da escolha de palavras. Seja qual for o nome que se lhe dá, é um ato de iniciativa própria de salvar outras vidas por meio de sacrificar sua própria”. Nesse sentido pode-se dizer que é um "suicídio sacrificial”.

Concluindo: a Bíblia não diz que os suicidas não terão salvação. Cada caso é um caso. Algumas pessoas, numa má interpretação, usam Apocalipse 21.8 para condenar todos os suicidas: "Mas, quanto aos tímidos, e aos abomináveis, e aos homicidas... a sua parte será no lago de fogo e enxofre, o que é a segunda morte”. No entanto, como vimos, nem sempre tirar a vida significa assassinato. E se este versículo não for bem interpretado poderia significar também que os tímidos, por serem tímidos, não poderiam ir para o céu. 

É bom lembrar que o único que tem a prerrogativa de tecer juízo de salvação é DEUS, o justo Juiz. Se você pensa em tirar a sua própria vida lembre-se que ainda há esperança para teus sofrimentos. Nem tudo está perdido. Não existe situação que Deus não possa intervir. O que você tem que fazer é lançar sobre Cristo toda a sua ansiedade, sabendo que Ele tem cuidado de você (1Pedro 5.7). Não deixe o Diabo encher sua mente de desesperança. Ataque o problema e não a você mesmo. Livre-se da angústia e verá que a vida “É o sopro do criador, numa atitude repleta de amor”.

Sim, os tímidos que não entrarão no reino dos céus são aqueles que tem vergonha do evangelho (Lucas 9.26). Muitos irão para o inferno não porque suicidaram-se, mas porque rejeitaram a Cristo e Sua mensagem. Encerro com as palavras de Fernando Pessoa: “Às vezes ouço passar o vento; e só de ouvir o vento passar, vale a pena ter nascido”. Se preferir tem as palavras de Gonzaguinha: “Viver, e não ter a vergonha de ser feliz. Cantar (e cantar e cantar) a beleza de ser um eterno aprendiz. Eu sei que a vida devia ser bem melhor e será. Mas isso não impede que eu repita. É bonita, é bonita e é bonita”. E então, a vida é bonita?




Pr. Antônio Pereira Jr.
(1ª Igreja Congregacional em Guarabira – PB).
E-mail: oapologista@yahoo.com.br

quinta-feira, 4 de fevereiro de 2016

DEPRESSÃO: A NOITE ESCURA DA ALMA


DEPRESSÃO: A NOITE ESCURA DA ALMA




Seria a depressão um problema apenas de ordem espiritual? Algumas igrejas, principalmente as pentecostais e neopentecostais, nem consideram que a depressão seja uma doença. Para estes, depressão é sempre sinônimo de opressão. Em minha opinião nem toda depressão é opressão. É preciso distinguir as coisas. Há na natureza humana três dimensões: física, emocional e espiritual. Essas dimensões não são estanques, elas se completam e se interinfluenciam.

Mas, o que é depressão? A depressão foi conhecida no decorrer dos séculos sob vários nomes: “Perda”, que seria um abatimento duradouro; Hipócrates diagnosticou no séc. IV a. C.; chamando-a de melancolia. Foi chamada do mal do século XX. Hoje afeta de 10 a 15% da população mundial. Estima-se que esse número vai chegar a 20%. E leva, anualmente, mais de 800 mil pessoas ao suicídio. Esta doença não tem só um aspecto. Existem vários tipos de depressão, o que este breve artigo não me permite elucidá-los. A OMS classificou a depressão como 4ª doença que mais causa invalidez. Até 2020 ocupará o 2º lugar, perdendo apenas para doenças cardíacas. 

A palavra vem do latim “deprimere”, que significa oprimir, abaixar, pressionar para baixo, cavar fundo, levar à profundidade. No sentido patológico, as causas podem ser diversas: desequilíbrio na química do cérebro; fatores físicos: estresses, insônia, álcool, drogas, vários tipos de doenças, etc; fatores psicossociais: experiências traumáticas na infância, extrema pobreza, rejeição, orfandade, divórcios, pessoas mal-amadas, etc; fatores espirituais ou sentimentais: sentimento de culpa (real ou imaginária), ódio, ressentimentos, pessimismo, pensamentos negativos, etc; causas genéticas: porém, a genética é predispositiva, não decisiva. Até mesmo “espiritualismo fanático” em algumas igrejas que fala do mundo espiritual com exagero e sem equilíbrio bíblico (há casos de pessoas que enlouquecem por viverem nesses ambientes). 

Já que depressão nem sempre é opressão, talvez, agora, uma pergunta seja necessária: um cristão pode ter depressão? Para alguns pastores se um cristão falar que está com depressão ele logo quer levá-la para alguma “sessão de descarrego” ou “culto de libertação”. Ou então para receber uma “oração forte” feita por algum pastor surtado com “síndrome de messias” e detentor de “poderes especiais”. 

No entanto, na Bíblia e na história temos vários exemplos de homens de Deus que tiveram momentos de angústias ou de extrema tristeza e abatimento levando-os (alguns deles) até pedir para si a morte: Jó (Jó 3.11; 16.16-17); Moisés (Nm 11.15); Elías (1Rs 19.1-18); Davi e outros salmistas (Sl 32; 38; 42; 43; 46 etc); Jonas (4.3); Jeremias (20.1-18; Lm 3.19-27); Paulo (At 16.16-40; 2Co 1.3-11). Na história, os exemplos de homens de Deus que passaram noites escuras da alma são inúmeros: Martinho Lutero; John Bunyan; William Cowper; David Brainerd; John Wesley; Charles Spurgeon, dentre tantos. Teria você a ousadia de dizer que esses homens não tinham Deus? 

O próprio Jesus teve sua “noite escura da alma”. Claro que ele não teve depressão como entendemos hoje (lembre-se que existe vários tipos de depressão). Mas teve um momento de tristeza profunda, uma angústia sufocante. Diz o texto sagrado: “Então, lhes disse: A minha alma está profundamente triste até à morte; ficai aqui e vigiai comigo” (Mt 26.38). A frase em grego significa: “estar intranquilo/triste/angustiado”; pode ser traduzido como: “começou a tremer e a ter medo e disse-lhes” ou “tomado de angústia e pavor, ele lhes disse”; “profundamente entristecido”; “minha alma está mortalmente entristecida”; isto é, os tormentos psíquicos são tão grandes que estão quase me matando. A angústia foi tão forte que ele teve “hematidrose” que é o ato de “suar sangue” (Lucas 22.42-44). Esse tipo de reação, apesar de ser raríssimo, só é produzido diante de condições excepcionais: uma fraqueza física, acompanhada de um abatimento moral violento causado por uma profunda emoção, por um grande medo. 

Quando Jesus disse isso ele estava no Getsêmani, no Monte das Oliveiras, com os seus discípulos antes de ser entregue à crucificação. Estava no momento que antecedia seu sofrimento na cruz. Não foram simples citações poéticas. Ele antevia o que aconteceria: seria traído, humilhado, desprezado, sentiria dores atrozes, etc. Como homem estava sujeito aos sentimentos que todos nós sentimos.

O problema é que em algumas igrejas, neopentecostais principalmente, a depressão e problemas emocionais são sempre associadas a opressão demoníaca. E o resultado triste disso é que alguns cristãos têm que esconder seus problemas para não ser tachado de crente fraco ou sem fé. Levando, inclusive, alguns líderes a se tratarem às escondidas para que sua prática não seja dissonante de sua pregação. Disfarçam seus sentimentos numa capa de suposta espiritualidade. Totalmente contrário do que o apóstolo Paulo fez e pregou. Ele não escondia sentimentos nem mostrava o que não era. Ele assim o fez para que “ninguém pense de si além do que convém” (Romanos 12.3). Ele disse: “sinto prazer nas fraquezas... nas angústias... porque quando estou fraco, então é que sou forte” (2Coríntios 12.10). Esse tipo de sermão dificilmente será ouvido nesse tipo de igreja de triunfalismos antibíblicos e perversos. Igreja de uma cegueira auto imposta, fruto de narcisismo idiota e fora da razão e do bom senso. Que não tem espaço no chão da vida. No dia-a-dia. Serve apenas para pavoneamento nos cultos de domingo à noite. 

Eu creio que Deus pode curar qualquer doença se o quiser. Mas, nem sempre o faz (a Bíblia é recheada de exemplos). A depressão tem causado muitos males dentro e fora das instituições religiosas, sejam elas evangélicas ou não. Se você sofre desse mal, não deixe que isso te leve ao extremo de um suicídio. O Cristo da Palavra verdadeira pode te ajudar a passar pela sua “noite escura da alma”. Todos nós, seres humanos normais, sabemos o que é isso. Deus sabe e cuida de nós mesmo no sofrimento: “Pois não temos um sumo sacerdote que não seja capaz de compadecer-se das nossas fraquezas, mas temos o Sacerdote Supremo que, à nossa semelhança, foi tentado de todas as formas, porém sem pecado algum” (Hebreus 4.15). Diga como o salmista: “Por que estás abatida, ó minha alma, e por que te perturbas dentro de mim? Espera em Deus, pois ainda o louvarei, o qual é a salvação da minha face, e o meu Deus” (Salmos 42.11).

Busque a Deus, não a religião. Religião às vezes causa depressão ao invés de libertá-lo dela. Leia o Novo Testamento e deixe a Palavra fazer uma revolução na sua alma. Finalmente, em alguns casos é preciso procurar ajuda de profissionais. Especialmente de um profissional cristão. Mas, e se alguém numa depressão insuportável vier a cometer suicídio, vai será perdoado? Bem, isso já é assunto para o próximo artigo...


Pr. Antônio Pereira Jr.
(1ª Igreja Congregacional em Guarabira – PB).
E-mail: oapologista@yahoo.com.br