sábado, 20 de fevereiro de 2016

SUICÍDIO: O FIM DA ESPERANÇA



SUICÍDIO: O FIM DA ESPERANÇA




Já sentiu vontade de morrer? Eu sei como é isso. Quem nunca, em momento de profunda tristeza ou decepção, não deixou esse pensamento penetrar no coração? Querer que o sofrimento acabe é natural. O sofrimento é fruto do pecado na raça humana. O engano é pensar que quando se tira a própria vida o sofrimento acaba. Nunca acaba, principalmente para os entes queridos que ficam com a sensação de impotência e cheio de questionamentos existenciais. 

Vou tentar ser o mais sucinto possível. É impossível tratar com detalhes sobre esse assunto complexo num pequeno artigo. As questões éticas sempre serão difíceis de tratar e sempre teremos vozes dissonantes. Entendo que até certo ponto, sentir vontade de morrer é normal. Vários homens de Deus também pensaram em desistir da vida. Na Bíblia, há pelo menos três personagens que pediram para si a morte: Elias (1Reis 19.4). (Jó 7.15) e Jonas (Jonas 4.3).

O Suicídio que também é conhecido como “autocídio”, vem do latim: sui (a si mesmo) e caedere (matar, cortar), ou seja, matar a si mesmo. As causas são as mais diversas: transtorno mental ou psicológico desembocando no ato extremo por causa de uma depressão profunda; transtorno bipolar; esquizofrenia; abuso de drogas; dificuldades financeiras, etc. Acredita-se que mais de 800 mil pessoas cometem suicídio por ano em todo mundo. Alguns dados dizem que são mais de 1 milhão. O mais trágico é que a faixa etária está entre as pessoas mais jovens (pessoas com menos de 35 anos). Paradoxalmente quem tem mais tempo pela frente desiste da vida. Os velhos sabem dar mais valor à vida, entendem que apesar dos problemas, como disse Gonzaguinha: “É a vida... E é bonita, é bonita e é bonita”. 

A princípio, biblicamente falando, alguns entendem que o suicídio é um assassinato, pois na Bíblia diz: "Não matarás" (Êx 20.13). Um princípio claro é que a vida pertence a Deus e apenas ele tem o direito de tomá-la (Dt 32.39; Jo 1.21). Com relação ao suicídio em si, há pelo menos cinco casos registrados na Bíblia: Abimeleque (Jz 9.50-56); Saul (1Sm 31.1-6); Zinri (1Rs 16.18-19); Aitofel (2Sm 17.23), e Judas, único exemplo no Novo Testamento (Mt 27.3-10). Alguns inferem deste último que o suicídio leva a condenação, contudo, Judas foi condenado não porque suicidou-se, mas por trair a Cristo e Sua mensagem.

De forma geral os teólogos condenam o suicídio. Crisóstomo, Eusébio, Ambrósio e Jerônimo apoiaram as mulheres que cometiam suicídio para escapar de homens que queriam colocá-las em bordéis. Já Agostinho as condenava. Tomás de Aquino classificou o suicídio como o pior dos pecados. A Igreja Católica condenava todos os suicidas. As igrejas evangélicas tradicionalmente condenam o suicídio, sem, contudo, condenar o suicida. Há uma diferença. O suicídio é errado? Claro que é. A vida é bela apesar dos espinhos. Mas alguém que se suicida por passar por problemas psicológicos, ou fraquezas humanas não teria o perdão de Deus? Quem é o juiz? Quem pode determinar se alguém foi para o céu ou não? Quem sabe com certeza se alguém antes de morrer não teve tempo para se arrepender? Alguns casos podem ser notórios, outros não nos cabe julgar. 

Nem todo “suicídio” é um ato contra si mesmo. Sansão comete um “suicídio sacrificial” pelos outros. E este gesto não o condenou, ele foi colocado entre os heróis da fé, junto com Gideão e Baraque (Hb 11.32). O que não se pode dizer de Judas, por exemplo. Basicamente, o suicídio é moralmente errado porque tal ideia leva o homem a querer tomar o lugar de Deus, que é o único que tem o direito de dar a vida e tirá-la. 

Deixe-me compartilhar alguns princípios que acho coerentes: 

(1) Nem sempre tirar uma vida é assassinato. O mandamento bíblico significa: "Não cometerás assassinato" (Êx 20.13). Por exemplo, tirar vidas numa guerra justa contra um agressor mau não é assassinato (Gn 14.14-15). Existia até o homicídio acidental (Dt 19.4-5) e que o homem não era tido por culpado. Além de haver a pena capital instituída pelo próprio Deus (Gn 9.6; Dt 19.21). É tanto antibíblico quanto irrealista categorizar todo ato de tirar uma vida como sendo moralmente errado e sujeito a condenação eterna. 

(2) O suicídio para si mesmo não pode ser justificado filosoficamente. Apesar de alguns filósofos serem a favor, como Schopenhauer, o suicídio, diz Sartre, é errado porque é um ato de liberdade que destrói todos os atos futuros de liberdade. Ou, o suicídio é uma ação absurda do raciocínio, porque é a "razão" que se destrói a si mesma. Viver é dom de Deus.

(3) O suicídio para si mesmo não pode ser justificado eticamente. O suicídio não é um ato de interesse-próprio. Não pode ser! É uma falta de interesse apropriado em si mesmo. A única maneira de alguém demonstrar interesse em si mesmo é preservar a si mesmo. Quando um homem se suicida, ele o faz contra sua vontade básica para viver. Agostinho disse que o suicídio é um fracasso da coragem. 

(4) Nem todo suicídio é errado (Rm 5:7; Jz 16:30; Fp 1:23). Segundo Norman Geisler, a prova real de que o suicídio sacrificial está moralmente certo é a morte de Cristo que veio "... dar a sua vida em resgate por muitos" (Mc 10.45; Jo 10.18). "Ninguém tem maior amor do que este," disse Jesus, "de dar alguém a própria vida em favor dos seus amigos" (Jo 15.13). Cristo disse: "dou a minha vida" (Jo 10.15), porque "o bom pastor dá a vida pelas ovelhas" (Jo 10.11). 

Geisler esclarece o termo suicídio aplicado a Cristo: “Talvez alguns objetem ao uso da palavra ‘suicídio’ nesta conexão. Podem argumentar que o sacrifício da sua vida em prol doutras pessoas não é suicídio. O soldado que cai por cima de uma granada para salvar seus companheiros não está se suicidando, pode ser argumentado. É verdade. Há uma diferença entre o suicídio egoísta e aquilo que chamamos de suicídio sacrificial, e somente este último é moralmente justificável. Se a pessoa quer usar a palavra ‘suicídio’ ou não, a respeito de tal sacrifício, é questão da escolha de palavras. Seja qual for o nome que se lhe dá, é um ato de iniciativa própria de salvar outras vidas por meio de sacrificar sua própria”. Nesse sentido pode-se dizer que é um "suicídio sacrificial”.

Concluindo: a Bíblia não diz que os suicidas não terão salvação. Cada caso é um caso. Algumas pessoas, numa má interpretação, usam Apocalipse 21.8 para condenar todos os suicidas: "Mas, quanto aos tímidos, e aos abomináveis, e aos homicidas... a sua parte será no lago de fogo e enxofre, o que é a segunda morte”. No entanto, como vimos, nem sempre tirar a vida significa assassinato. E se este versículo não for bem interpretado poderia significar também que os tímidos, por serem tímidos, não poderiam ir para o céu. 

É bom lembrar que o único que tem a prerrogativa de tecer juízo de salvação é DEUS, o justo Juiz. Se você pensa em tirar a sua própria vida lembre-se que ainda há esperança para teus sofrimentos. Nem tudo está perdido. Não existe situação que Deus não possa intervir. O que você tem que fazer é lançar sobre Cristo toda a sua ansiedade, sabendo que Ele tem cuidado de você (1Pedro 5.7). Não deixe o Diabo encher sua mente de desesperança. Ataque o problema e não a você mesmo. Livre-se da angústia e verá que a vida “É o sopro do criador, numa atitude repleta de amor”.

Sim, os tímidos que não entrarão no reino dos céus são aqueles que tem vergonha do evangelho (Lucas 9.26). Muitos irão para o inferno não porque suicidaram-se, mas porque rejeitaram a Cristo e Sua mensagem. Encerro com as palavras de Fernando Pessoa: “Às vezes ouço passar o vento; e só de ouvir o vento passar, vale a pena ter nascido”. Se preferir tem as palavras de Gonzaguinha: “Viver, e não ter a vergonha de ser feliz. Cantar (e cantar e cantar) a beleza de ser um eterno aprendiz. Eu sei que a vida devia ser bem melhor e será. Mas isso não impede que eu repita. É bonita, é bonita e é bonita”. E então, a vida é bonita?




Pr. Antônio Pereira Jr.
(1ª Igreja Congregacional em Guarabira – PB).
E-mail: oapologista@yahoo.com.br

quinta-feira, 4 de fevereiro de 2016

DEPRESSÃO: A NOITE ESCURA DA ALMA


DEPRESSÃO: A NOITE ESCURA DA ALMA




Seria a depressão um problema apenas de ordem espiritual? Algumas igrejas, principalmente as pentecostais e neopentecostais, nem consideram que a depressão seja uma doença. Para estes, depressão é sempre sinônimo de opressão. Em minha opinião nem toda depressão é opressão. É preciso distinguir as coisas. Há na natureza humana três dimensões: física, emocional e espiritual. Essas dimensões não são estanques, elas se completam e se interinfluenciam.

Mas, o que é depressão? A depressão foi conhecida no decorrer dos séculos sob vários nomes: “Perda”, que seria um abatimento duradouro; Hipócrates diagnosticou no séc. IV a. C.; chamando-a de melancolia. Foi chamada do mal do século XX. Hoje afeta de 10 a 15% da população mundial. Estima-se que esse número vai chegar a 20%. E leva, anualmente, mais de 800 mil pessoas ao suicídio. Esta doença não tem só um aspecto. Existem vários tipos de depressão, o que este breve artigo não me permite elucidá-los. A OMS classificou a depressão como 4ª doença que mais causa invalidez. Até 2020 ocupará o 2º lugar, perdendo apenas para doenças cardíacas. 

A palavra vem do latim “deprimere”, que significa oprimir, abaixar, pressionar para baixo, cavar fundo, levar à profundidade. No sentido patológico, as causas podem ser diversas: desequilíbrio na química do cérebro; fatores físicos: estresses, insônia, álcool, drogas, vários tipos de doenças, etc; fatores psicossociais: experiências traumáticas na infância, extrema pobreza, rejeição, orfandade, divórcios, pessoas mal-amadas, etc; fatores espirituais ou sentimentais: sentimento de culpa (real ou imaginária), ódio, ressentimentos, pessimismo, pensamentos negativos, etc; causas genéticas: porém, a genética é predispositiva, não decisiva. Até mesmo “espiritualismo fanático” em algumas igrejas que fala do mundo espiritual com exagero e sem equilíbrio bíblico (há casos de pessoas que enlouquecem por viverem nesses ambientes). 

Já que depressão nem sempre é opressão, talvez, agora, uma pergunta seja necessária: um cristão pode ter depressão? Para alguns pastores se um cristão falar que está com depressão ele logo quer levá-la para alguma “sessão de descarrego” ou “culto de libertação”. Ou então para receber uma “oração forte” feita por algum pastor surtado com “síndrome de messias” e detentor de “poderes especiais”. 

No entanto, na Bíblia e na história temos vários exemplos de homens de Deus que tiveram momentos de angústias ou de extrema tristeza e abatimento levando-os (alguns deles) até pedir para si a morte: Jó (Jó 3.11; 16.16-17); Moisés (Nm 11.15); Elías (1Rs 19.1-18); Davi e outros salmistas (Sl 32; 38; 42; 43; 46 etc); Jonas (4.3); Jeremias (20.1-18; Lm 3.19-27); Paulo (At 16.16-40; 2Co 1.3-11). Na história, os exemplos de homens de Deus que passaram noites escuras da alma são inúmeros: Martinho Lutero; John Bunyan; William Cowper; David Brainerd; John Wesley; Charles Spurgeon, dentre tantos. Teria você a ousadia de dizer que esses homens não tinham Deus? 

O próprio Jesus teve sua “noite escura da alma”. Claro que ele não teve depressão como entendemos hoje (lembre-se que existe vários tipos de depressão). Mas teve um momento de tristeza profunda, uma angústia sufocante. Diz o texto sagrado: “Então, lhes disse: A minha alma está profundamente triste até à morte; ficai aqui e vigiai comigo” (Mt 26.38). A frase em grego significa: “estar intranquilo/triste/angustiado”; pode ser traduzido como: “começou a tremer e a ter medo e disse-lhes” ou “tomado de angústia e pavor, ele lhes disse”; “profundamente entristecido”; “minha alma está mortalmente entristecida”; isto é, os tormentos psíquicos são tão grandes que estão quase me matando. A angústia foi tão forte que ele teve “hematidrose” que é o ato de “suar sangue” (Lucas 22.42-44). Esse tipo de reação, apesar de ser raríssimo, só é produzido diante de condições excepcionais: uma fraqueza física, acompanhada de um abatimento moral violento causado por uma profunda emoção, por um grande medo. 

Quando Jesus disse isso ele estava no Getsêmani, no Monte das Oliveiras, com os seus discípulos antes de ser entregue à crucificação. Estava no momento que antecedia seu sofrimento na cruz. Não foram simples citações poéticas. Ele antevia o que aconteceria: seria traído, humilhado, desprezado, sentiria dores atrozes, etc. Como homem estava sujeito aos sentimentos que todos nós sentimos.

O problema é que em algumas igrejas, neopentecostais principalmente, a depressão e problemas emocionais são sempre associadas a opressão demoníaca. E o resultado triste disso é que alguns cristãos têm que esconder seus problemas para não ser tachado de crente fraco ou sem fé. Levando, inclusive, alguns líderes a se tratarem às escondidas para que sua prática não seja dissonante de sua pregação. Disfarçam seus sentimentos numa capa de suposta espiritualidade. Totalmente contrário do que o apóstolo Paulo fez e pregou. Ele não escondia sentimentos nem mostrava o que não era. Ele assim o fez para que “ninguém pense de si além do que convém” (Romanos 12.3). Ele disse: “sinto prazer nas fraquezas... nas angústias... porque quando estou fraco, então é que sou forte” (2Coríntios 12.10). Esse tipo de sermão dificilmente será ouvido nesse tipo de igreja de triunfalismos antibíblicos e perversos. Igreja de uma cegueira auto imposta, fruto de narcisismo idiota e fora da razão e do bom senso. Que não tem espaço no chão da vida. No dia-a-dia. Serve apenas para pavoneamento nos cultos de domingo à noite. 

Eu creio que Deus pode curar qualquer doença se o quiser. Mas, nem sempre o faz (a Bíblia é recheada de exemplos). A depressão tem causado muitos males dentro e fora das instituições religiosas, sejam elas evangélicas ou não. Se você sofre desse mal, não deixe que isso te leve ao extremo de um suicídio. O Cristo da Palavra verdadeira pode te ajudar a passar pela sua “noite escura da alma”. Todos nós, seres humanos normais, sabemos o que é isso. Deus sabe e cuida de nós mesmo no sofrimento: “Pois não temos um sumo sacerdote que não seja capaz de compadecer-se das nossas fraquezas, mas temos o Sacerdote Supremo que, à nossa semelhança, foi tentado de todas as formas, porém sem pecado algum” (Hebreus 4.15). Diga como o salmista: “Por que estás abatida, ó minha alma, e por que te perturbas dentro de mim? Espera em Deus, pois ainda o louvarei, o qual é a salvação da minha face, e o meu Deus” (Salmos 42.11).

Busque a Deus, não a religião. Religião às vezes causa depressão ao invés de libertá-lo dela. Leia o Novo Testamento e deixe a Palavra fazer uma revolução na sua alma. Finalmente, em alguns casos é preciso procurar ajuda de profissionais. Especialmente de um profissional cristão. Mas, e se alguém numa depressão insuportável vier a cometer suicídio, vai será perdoado? Bem, isso já é assunto para o próximo artigo...


Pr. Antônio Pereira Jr.
(1ª Igreja Congregacional em Guarabira – PB).
E-mail: oapologista@yahoo.com.br